Era uma vez, há muitos, muitos milhares de anos atrás, uma pequena comunidade de caçadores recoletores, que vivia no Vale do Côa, região do Alto Douro.
Nessa pequena comunidade, que vivia numa grande caverna perto do rio Côa, destacavam-se pela sua agilidade, força ou inteligência a Ara, uma jovem mulher, eficiente e rápida a encontrar frutos e bagas na floresta; a Nai, uma rapariguinha que gostava de pintar animais e cenas de caça nas paredes das cavernas; a anciã Una, sábia e protetora, mãe de muitos filhos e avó de todas as crianças do clã; o jovem Norgu, hábil caçador; Tróne, o mais forte do grupo, e Ranga, o líder do clã por ser o mais esperto e destemido de todos.
Um dos grandes medos destes seres humanos era o fogo. Todos eles o temiam pois não o compreendiam nem o sabiam controlar.
Nesse tempo, os homens julgavam que o fogo era um monstro que os queria devorar a todos. Não entendiam por que razão ele surgia, nem faziam ideia de como o combater ou controlar. Só sabiam que era perigoso, pois feria e matava, e que dele imanava um calor abrasador e um sentimento de desespero, de impotência e de pânico.
Durante a noite, ouviam, vindos da escuridão, os ruídos dos animais, uivos de lobos, rosnados de ursos, rugidos de feras perigosas e por vezes, também não menos assustador, o crepitar das chamas e os gritos desesperados e agonizantes dos seres vivos apanhados pelas labaredas.
A pequena comunidade que vivia junto ao rio, estava consciente dos perigos que enfrentava diariamente na sua luta pela sobrevivência pelo que todas as noites, Norgu, consciente da hostilidade da natureza, preparava sempre as suas lanças, repetindo invariavelmente “Temos de proteger a nossa caverna!”.
Tróne, forte e desconfiado, tapava a entrada da gruta com pedras grandes que fazia rolar até formar uma espécie de muro que servia de barreira aos animais que tentassem entrar, dessa forma sentiam-se mais seguros.
Durante a noite, todos se encolhiam e se encostavam uns aos outros. Assim juntos combatiam o frio e o medo que invadia as suas mentes.
Ora, certa noite, Nai, a artista do clã, não conseguindo dormir devido ao ar denso que se fazia sentir e ao silêncio inquieto que pairava no exterior, resolveu aproximar-se prudentemente da entrada da caverna para observar o céu. De repente ouve um estrondo que faz estremecer a terra, logo a seguir um clarão a rasgar a escuridão. Aturdida com o barulho, os seus olhos seguem o raio, veloz e violento, que, desenhando veias de luz no céu, se abate sobre o grande e velho carvalho que ladeia a entrada da caverna.
Rapidamente a árvore fica em chamas, chamas vivas que devoram a madeira, cuspindo luz e calor.
Aterrorizada com o que vê e ouve, Nai grita e foge para o interior da caverna, tropeçando nos companheiros que acabam de acordar com o barulho do trovão.
Ranga levanta-se, sai da caverna e avança em direção ao fogo. O seu coração bate forte, mas os olhos não se desviam. Com um galho na mão, aproxima-se lentamente. O fogo ruge, mas não o ataca pois está ocupado com o velho carvalho que devora sofregamente.
Novo trovão soa e a chuva começa a cair grossa e fria. Ranga mergulha o seu galho nas chamas e corre, protegendo a chama contra o peito, enquanto os outros o cercam, gritando, tremendo, não compreendendo o que ele está a fazer. Quando chega à caverna, o fogo ainda respira, pequeno, mas vivo.
Ranga ordena que lhe cheguem ramos e galhos. Prontamente o grupo obedece e ele alimenta a pequena chama que roubou ao monstro faminto. Com cuidado e carinho não deixa a chama morrer. Os outros observam admirados, apreensivos, incrédulos perante tal loucura e ousadia. Pela primeira vez, o fogo pertence aos homens.
Nessa noite de trovoada, sem que tenham tido consciência do facto, deu-se uma das maiores conquistas da história da humanidade: A captura e o domínio do fogo.
Graças a esta conquista as noites do clã deixam de ser frias e tenebrosas; a comida torna-se saborosa e mais fácil de digerir; a linguagem desenvolve-se e os medos esvanecem-se.
Com o domínio do fogo o grupo irá crescer, irá impor-se na natureza, desenvolvendo capacidades manuais e cognitivas, de tal forma que rapidamente o pequeno clã dará origem a uma tribo, a Tribo da Caverna do Rio, cujos membros não temem a escuridão nem as chamas reconfortantes das fogueiras.
Conto da autoria dos alunos do 5ºA, no âmbito do Plano Cultural da Escola para a Bienal do Plano Nacional das Artes, subordinado ao tema «E em vez do medo?»